ALTAIR RAMALHO
A morte de Altair Ramalho
representa para a região dos Campos Gerais prejuízo inestimável
para a cultura. No espectro ideológico que representava era o único
jornalista inteligente. Seu programa era opinativo mas conseguia
conquistar certa independência em relação ao grupo que o mantinha
no ar, tanto que múltiplas vezes, saia em defesa dos ignorados pelo
poder público na área da educação e da saúde. Sua voz, nos
últimos anos, vinha sendo a tradutora e o eco dos que estão sendo
vitimados pelo caos na saúde pública do município, arriscando-se o
jornalista, na defesa dos que não tinham outra condição. A meu
ver, Altair Ramalho soube representar um poder contestativo,
encarnado na esquerda da burguesia e dos senhores feudais do Paraná.
Sua presença nos microfones das emissoras de onda média e modulada,
transformados no besteirol que anestia a consciência e a memória da
população, representou uma pitada de coisa boa, de conteúdo e
qualidade. Era o “Revelações no ar” o relevante, a excelência,
tudo que vinha antes e depois se reduzia a pó. Falsas estrelas da
comunicação escondiam-se atrás do brilho de um jornalista bem
formado, que combinava vasta cultura, livre e tranquilo trânsito nas
Letras e no Direito.
Altair Ramalho se revelava um
pai exemplar e orgulho, defendia os filhos em público e no ar, sem
medir consequências. Era inteligente, possuia discurso bem
construído, precisava de apenas cinco minutos para dizer suas
verdades. Não tinha medo do poder. Enfrentou, audaciosamente, a
prática e o tratamento que policiais militares davam em abordagens.
A região perdeu um
extraordinário arquivo histórico, a memória do jornalista. Ramalho
sabia em detalhes de acontecimentos históricos relevantes para a
nossa formação. Estes não circulavam além dos horários dos
programas em que o jornalista atuava. A cidade não conta mais com
eles. Perde. Piora.
Distingui-me sempre das posições
políticas e ideológicas do jornalista. Frequentemente, recebia
contundentes respostas por parte dele no ar, contrárias às posições
que assumi, mas sempre me tratou com respeito, distinção e
referência. Querendo ou não, ele tornou minhas convicções mais
conhecidas e me colocou no centro de algumas controvérsias.
Infelizmente, a cidade, suas instituições não tem quem repor,
substituir, Altair Ramalho. Fica sua trajetória na comunicação à
espera de pesquisas, dissertações, com rigor acadêmico, olhar
sociológico, sem culto à personalidade. Ramalho teve importância e
destaque que a maioria dos nossos políticos. Foi mais útil, teve
maior significação, participou engajada e mais ativamente da vida
pública.
[Pela expressão do momento, o sentimento de perda que todos sentimos agora, meu texto fica sem revisão mais acurada].